Computador barato vende 47% mais este ano
Isenção de impostos, dólar baixo e facilidade de crédito fazem mercado explodir em 2006, quando 8,3 milhões de máquinas foram vendidas
Duramente criticado mundo afora pela quantidade de produtos piratas vendidos no país, o Brasil vem passando por uma experiência que mostra claramente que o segredo está no bolso. Beneficiado pela isenção fiscal e linhas de financiamentos, além de uma boa ajuda do câmbio, o mercado de informática vive um surto impressionante — o comércio legal de computadores cresceu 47% este ano, depois de um avanço de 36% em 2005, e deve encerrar 2006 com 8,3 milhões de máquinas vendidas.
O mercado cinza encolheu na mesma toada. A participação da pirataria na informática caiu de 73% em 2004, para os 47% atuais. Ainda é muito, até porque nos países desenvolvidos esse índice é a metade do brasileiro, mas o processo atual não parece estar próximo do fim. Nas lojas e supermercados, os computadores de mesa estão entre os principais presentes de Natal e uma nova investida será direcionada para os notebooks.
"Tenho circulado pelas lojas para procurar um computador para minha filha e os preços estão realmente melhores. Há dois anos, comprei um computador por R$ 2 mil, mas hoje estou escolhendo entre opções que custam quase a metade e são muito superiores", diz a administradora Kariny Rodrigues Porto, que na semana passada escolhia a melhor configuração ao lado da filha, Thayná, de 9 anos.
No ano passado, o governo retirou PIS e Cofins os computadores de até R$ 2,5 mil. A isenção dos tributos teve um impacto imediato por reduzir os preços em 9,25% e a medida foi complementada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que ofereceu R$ 300 milhões em financiamentos para que as lojas adquirissem as máquinas dos fabricantes. Claro que a valorização do real também ajudou, e muito, um setor em que boa parte dos componentes são importados. Afinal, desde o início de 2005, o dólar caiu quase 20% — era R$ 2,65 em janeiro do ano passado e hoje é negociado por cerca de R$ 2,15.
A soma desses fatores fez o computador caber no orçamento de brasileiros que jamais tiveram oportunidade de comprar um PC. Uma pesquisa da consultoria ITData, encomendada pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), indica que 61% das compras no primeiro semestre deste ano foram feitas por consumidores que não possuíam computador. Em 2005, esse índice foi de 55%. "A grande maioria são pessoas que estão comprando computador pela primeira vez. Aquela camada da população que agora está conseguindo comprar, graças aos financiamentos", diz o gerente de eletroeletrônicos do grupo Pão de Açúcar, Avelino Nogueira da Silva.
Mas se a intenção do programa Computador para Todos era tornar os micros acessíveis para a classes mais pobres, o efeito se espalhou por todo o mercado. O aumento da demanda estimulou que equipamentos mais sofisticados também caíssem de preço, acertando em cheio as classes mais altas que ainda estavam na ilegalidade. "Os computadores de contrabando estão sendo trocados por computadores de prateleira", aposta o diretor nacional do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Sérgio Rosa.
O efeito pode ser visto em redes de supermercados e lojas de informática. "As vendas estão muito fortes. Num ano que se imaginava ter nos televisores o maior sucesso, por causa da Copa do Mundo, a grande vedete tem sido a informática, que superou em muito as expectativas. Nós tivemos um aumento de vendas de 70%, mas acredito que a concorrência também tenha resultados muito bons", diz Silva, do grupo Pão de Açúcar. "Na semana passada fizemos uma das várias promoções que estamos organizando e vendemos dois mil computadores em um único dia", comemora.
As lojas da rede ofereceram computadores por R$ 849, incluindo o monitor, num exemplo do que vem acontecendo no mercado. Além dos preços mais acessíveis, o grande trunfo é o crédito. "O mercado oficial já virou para cima do mercado cinza e uma grande vantagem tem sido o financiamento. Até porque no mercado pirata é muito difícil ter preços tão bons e com venda a prazo", diz Silva. É possível encontrar computadores por prestações de R$ 59. "As lojas estão oferecendo financiamentos em 10 ou 12 vezes, sem juros. Agora dá para comprar o computador que minha filha tanto me cobra", explica o militar Wilmar Ramos de Farias, que na quinta-feira levou a família para escolher o presente da filha mais velha.
"Esse produto mexeu com todo o mercado. Até software caiu de preço", relembra um dos pais do Computador para Todos, o assessor especial da Casa Civil César Alvarez. Grandes empresas, como a Dell, viram aumentar o interesse pelo equipamento de marca o que, segundo o vice-presidente e diretor geral para América Latina, Peter Wiegandt, é bom para a economia e para o cliente.
Correio Braziliense – DF, Mariana Mazza e Luís Osvaldo Grossmann, 10 de dezembro de 2006













