Pechincha digital
Chegada dos PCs do programa "Computador Para Todos" obriga concorrentes a baixar seus preços; veja testes dos micros econômicos e descubra quais suas vantagens e seus problemas
Comprar um computador no Brasil nunca custou tão pouco.
As fabricantes foram impulsionadas por incentivos fiscais dados pelo governo e pela concorrência gerada pelo programa "Computador Para Todos", no ano passado, e passaram a oferecer modelos mais básicos e baratos.
As redes varejistas, por sua vez, ajudam a popularizar os modelos com condições de compra facilitadas. Os resultados da pechincha começam a aparecer. Já é possível comprar PCs com gravador de CDs e 40 Gbytes de disco rígido por menos de R$ 1.500.
Segundo a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), o valor médio dos PCs vendidos em São Paulo caiu 15%.
"O programa do governo e a desvalorização do dólar foram os principais responsáveis pela baixa nos preços, mas as fabricantes que não participaram dessa iniciativa reduziram o custo dos produtos para responder a demanda do mercado", diz o coordenador da Fipe, Paulo Picchetti.
O sucesso das vendas dos micros baratos também fizeram com que as multinacionais voltassem suas atenções aos usuários.
Um exemplo: Dell e HP, duas das maiores fabricantes do mundo, lançaram PCs populares.
As conseqüências do barateamento das máquinas não param por aí. Com pagamento facilitado por redes de varejo, os consumidores do mercado informal, que monta PCs com componentes de de origem desconhecida, estão diminuindo e migrando.
De acordo com a consultoria IDC, em 2005, a participação dos micros montados foi de 61%, contra 74% em 2004.
Máquinas têm instalação fácil, mas iniciantes encontrarão problemas para aproveitar seus recursos
Confira virtudes e fraquezas do PC barato
Durante a avaliação realizada pela reportagem, os cinco modelos populares apresentaram defeitos e qualidades semelhantes.
Como principais vantagens, merecem destaque a facilidade de instalação dos micros, o conjunto de programas oferecidos e o número de conectores USB disponíveis (seis, em média).
Como pontos fracos, as limitações mais evidentes são a falta de compatibilidade com dispositivos externos, como câmeras digitais, e a dificuldade de efetuar a primeira conexão com a internet.
Em todas as máquinas testadas, há cabos e conectores coloridos que ajudam o usuário inexperiente a ligar a máquina pela primeira vez de forma intuitiva.
A documentação de apoio, porém, é insuficiente. Os manuais de uso do sistema, dos CDs de recuperação e dos programas são entregues apenas em versão digital, atrapalhando o acompanhamento de tarefas complexas.
Os conjuntos de softwares que acompanham os computadores trazem uma boa variedade de opções para a realização de tarefas básicas, como editar textos e usar serviços da internet.
Começo difícil
O sistema Windows Starter Edition reconheceu automaticamente todos os dispositivos conectados por meio do cabo USB. Câmera digital, drive externo e impressoras foram acessadas com poucos cliques. Nos sistemas baseados em Linux, apenas o Kurumin (presente no Amazon PC) foi realmente eficiente no reconhecimento da câmera. Mesmo assim, foi possível, com algum esforço, usar os dispositivos nas outras distribuições do Linux.
Acesso discado
Quem acessa a internet via conexão discada com um computador popular pode encontrar dificuldades. Alguns micros não vêm com discador configurado e é preciso incluir as informações do provedor manualmente, tarefa que pode ser complicada sem a ajuda do suporte técnico. (JB)
Fabricantes desconhecidas apostam nos preços baixos; multinacionais famosas entram no segmento
Aumenta a oferta de máquinas populares
Computadores que custam menos de R$ 1.500 já não são raridade nem sinônimo de produto vendido no mercado informal.
Desde o segundo semestre do ano passado, cresce o número de grandes redes do varejo e de fabricantes famosas que oferecem máquinas com preços reduzidos.
As configurações desses computadores são bastante simples e podem afastar quem usa programas sofisticados e jogos, mas são interessantes para quem pretende comprar o seu primeiro PC.
Aqueles que já possuem um micro e pretendem trocá-lo também são beneficiados. Boa parte das lojas vende PCs sem monitor, peça que custa, em média, R$ 300.
Os incentivos fiscais e o dólar em baixa tornaram o mercado nacional mais competitivo, e fabricantes como HP, Dell e Semp Toshiba mostram mais interesse no público doméstico.
A HP lançou, em novembro do ano passado, a sua primeira estação de trabalho com preço inferior a R$ 1.000, o HP Compaq Business Desktop dx2025 Microtower, que custa R$ 999 e é destinado a empresas de porte pequeno ou médio. Para usuários domésticos, a marca oferece modelos como o Pavilion b1010br, que tem sistema Linux, processador Celeron D336 e custa R$ 1.499 em pagamento à vista (com monitor).
O PC da Semp Toshiba EL-1001 Modelo D-1043 tem configurações parecidas e preço sugerido de R$ 1.684 (à vista), mas pode ser comprado com desconto no telefone 0800-162-900. A arma da Dell para superar a concorrência é a personalização das máquinas.
No site da empresa, é possível montar uma máquina básica com monitor de 15 polegadas e Windows por cerca de R$ 1.600.
Caras novas
Além das marcas multinacionais, o mercado brasileiro está repleto de fabricantes menos conhecidas, que oferecem computadores a preços tentadores.
É o caso da Novadata, da PCI e da Kellow. Esta última vende o modelo KVC 4000, que custa R$ 899 (à vista) com sistema Linux e sem monitor. Outra empresa que cobra menos de R$ 1.000 é a Epcom, com o PC Krypton 2130BR, vendido por R$ 999 (à vista) com Linux e sem monitor.
Neste ano, mais 17 fabricantes deverão ganhar o selo do programa "Computador Para Todos", segundo estimativas do Serviço Federal de Processamento de Dados (www.serpro.gov.br). Com mais opções, os preços deverão cair ainda mais. (JB)
Modelo mais barato é repleto de restrições
Resultado de uma parceria que envolve empresas como a fabricante de processadores AMD e a operadora Telefônica, o computador popular FIC Conectado aposta em um conceito diferente para a inclusão digital.
No lugar de uma máquina convencional, com possibilidade de melhorias das peças internas e liberdade na instalação de programas, ele traz uma caixa lacrada que pode ser considerada uma "máquina de internet".
Munido de uma versão do sistema Windows CE, que foi criado originalmente para micros de mão, o FIC Conectado traz softs instalados e configurados.
Não é possível adicionar novos programas e realizar tarefas simples, como abrir um documento do Word, gastam mais tempo do que se fossem feitas em um PC convencional. Se, por um lado, as limitações podem reduzir muito a utilidade da máquina, por outro lado, elas evitam vírus e a instalação de programas espiões. A conexão com a internet também é facilitada, embora seja restrita a apenas um provedor de acesso.
Disponível apenas no Estado de São Paulo (tel. 0800-771-5236 ou no site itelefonica.terra.com.br/ computador), o FIC Conectado custa R$ 799 à vista ou R$ 1.544 em 36 parcelas de R$ 42,90. Somado a esse valor, vem a taxa de frete, que pode passar de R$ 50.
O micro tem processador AMD Geode de 500 MHz, memória RAM de 128 Mbytes, disco rígido de 10 Gbytes e duas portas USB livres. O pacote vendido pela Telefônica ainda vem com monitor de 15 polegadas, mouse e teclado. Atualmente há uma promoção que presenteia os clientes com um drive USB de 32 Mbytes. (JB)
Falta de compatibilidade do Linux e limitações impostas pela Microsoft tornam PC mal aproveitado
Sistemas pioram desempenho do micro
Quem decidir comprar um computador popular precisará conviver com limitações que vão além da configuração das peças da máquina. Para reduzir custos, as fabricantes decidiram usar sistemas operacionais baseados em Linux ou uma versão limitada do Windows, a Starter Edition. Ambos atendem às necessidades básicas de um usuário iniciante, mas apresentam barreiras para um uso pleno das configurações oferecidas pelas máquinas.
Tanto no Linux quanto no Windows é possível navegar na internet e usar ferramentas de escritório com facilidade. Jogos e programas mais pesados, como editores de imagens e tocadores de vídeo, por outro lado, apresentam lentidão e, muitas vezes, não têm sua instalação concluída.
PC com Linux
Durante os testes com três versões do Linux distribuídas nos computadores de preço baixo (Kurumin, Conectiva e Insigne), a reportagem encontrou dificuldade em realizar tarefas como instalar uma impressora, descarregar fotos de uma câmera digital e instalar e desinstalar programas.
Apesar de contar com até seis portas USB, as máquinas que usam Linux não têm reconhecimento automático dos dispositivos e, assim, não aproveitam os recursos do hardware.
Para obter êxito nas tarefas citadas, foi preciso realizar ajustes usando comandos de texto no terminal do Linux (ambiente equivalente ao DOS das antigas versões do Windows), uma técnica complicada para iniciantes.
A aparência dos sistemas Linux é bastante amigável e os pacotes de programas que vêm instalados oferecem mais serviços do que os softs que acompanham o Windows. Outra vantagem do sistema gratuito é a segurança. Programas espiões e vírus raramente causam estragos ao Linux, que usa proteção por senha na instalação de pacotes como padrão.
PC com Windows
No quesito compatibilidade com dispositivos externos, o Windows Starter Edition tem o mesmo potencial que as outras versões do sistema. Isso quer dizer que qualquer câmera digital, drive externo ou periférico conectado via USB são reconhecidos automaticamente e podem ser usados sem dificuldades.
Na parte interna, a situação é diferente. O Starter Edition só permite que três programas sejam abertos simultaneamente e não reconhece novas peças instaladas -o que impossibilita uma futura melhora no hardware do PC. Não é possível nem mesmo adicionar mais do que 256 Mbytes de memória RAM, um upgrade aconselhável para os micros populares, que já têm processadores lentos e pouco espaço em disco. (JB)
Softs ajudam a incrementar computador
Apesar das limitações nos sistemas operacionais dos computadores mais baratos, é possível ganhar em produtividade sem apelar para a pirataria. No Linux, uma opção é usar as ferramentas de instalação automática, como o apt-get e o Synaptic (www.nongnu.org).
Com eles, os programas são baixados e instalados automaticamente, e não é preciso procurar por acessórios exigidos (dependências). No caso do Windows, a saída para um melhor aproveitamento da máquina também passa pelo mundo do código aberto. O exemplos mais famosos são o navegador Firefox (www.getfirefox.com) e o pacote OpenOffice.org (www.openoffice.org.br). Para encontrar softs específicos, uma visita aos portais de download também pode ajudar. Alguns exemplos são o Softpedia.com e o Super Downloads (www.superdownloads.com.br) (JB)
Confira avaliação de Linux feita por iniciante
Pela primeira vez na vida estou escrevendo em um editor de texto que não é o Word nem o bloco de notas do Windows. É o editor do Conectiva Office, para Linux. A experiência não parece nova, tudo parece idêntico ao Word. As ferramentas, os menus, a tela, tudo. Mas, se além de escrever eu quiser formatar o texto, mudar cores ou inserir caracteres especiais, começo a ver diferenças. Colorir caracteres dá um certo trabalho. Descobri que, para fazer isso, é preciso clicar e manter o botão pressionado em vez de apenas apertar o botão. É uma tarefa insignificante, mas você precisará descobrir como fazê-la. A área de trabalho do Linux também é semelhante à do Windows e, por isso, tive certeza de que não teria problemas em utilizar o computador. Existe um editor de planilhas, como o Excel, um processador de textos, como o Word, e um programa de apresentações, como o PowerPoint. Quando usei esses softs, porém, percebi as diferenças. O usuário do Windows vai precisar exercitar a "arte de fuçar" para aprender como as coisas funcionam. Nem tudo é igual. O editor de textos parece com o Word, mas não é o Word, e assim por diante. A primeira tarefa que quis realizar foi aumentar a definição da tela, para que as letras não fossem tão pequenas, pois tenho problema de visão. Seguindo mais ou menos o que eu fazia no Windows, procurando aqui e ali, eu cheguei lá de maneira relativamente fácil. Não há, no Linux, um corretor ortográfico e, como digito rapidamente e não quero perder tempo com revisões, esse recurso me ajudaria muito. Pode ser que o corretor ortográfico exista e esteja desativado, mas, para descobrir isso, eu teria que pesquisar no micro. Chega uma hora em que essa busca fica cansativa. A sensação que se tem é a de que tudo está ali, mas organizado de forma estranha. Parece igual, mas não é. Se você já está acostumado com o Windows, logo vai se perguntar por que usar o Linux. Por que perder tempo procurando funções, por que se tornar especialista em software, se você já sabe usar outro que faz exatamente a mesma coisa? No começo, o Linux era interessante pela curiosidade da descoberta, mas, depois, ele se transforma em uma verdadeira prova de paciência. Marcos Sanches é estatístico e foi convidado a testar o sistema operacional Conectiva Linux do micro da Positivo, vendido pelo programa "Computador Para Todos".
Folha de São Paulo, Juliano Barreto, 22 de fevereiro de 2006













